Menu

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

olhos de sangue

Certa vez sonhou. Sonhou consigo mesma.
Menina mesquinha.
Sonhou que, pela primeira vez conhecia-se por completo. Parada frente a um espelho, ela se viu.
Viu
viu
e riu.

riu não de alívio, por descobrir que ela era quem sempre desejava ser.
riu não de alegria por ser alguém completamente desinibida de qualquer coisa que pudesse vir a incomodar.
riu não de satisfação pela sua aparência
riu não porque estava se sentindo feliz
ou qualquer coisa perto disso que possa provocar o riso
não
riu de desespero
de agonia e de terror
riu porque não sabia mais o que fazer
riu porque estava se tornando tóxica
riu porque queria acabar
acabar o que
sei la
só riu

depois de rir ela chorou

não chorou para colocar pra fora o que por tanto tempo a amargurava
chorou não por querer sentir-se aliviada
chorou não porque isso iria fazer sentir a água salgada escorrendo por sua face
ou qualquer outro sentimento que envolva metáforas
chorou porque não conseguiu segurar
e amparar
o fez ali para não o fazer na frente de outros
chorou porque quis acabar
acabar o que
não sei
mas
ela sabia
e se negava a acreditar
ou se importar com
quais medidas
tomar

sei lá
tanto faz
tanto fez
e nada conseguiu fazer

Nenhum comentário:

Postar um comentário